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terça-feira, 26 de maio de 2009

SEXUALIDADE NAS LESÕES MEDULARES CONGÊNITAS: SPINA BIFIDA


Resumo:A sexualidade é uma vertente complexa que contempla múltiplas questões biopsicossoais. Em indivíduos com alterações do desenvolvimento do tubo neural, nomeadamente spina bifida, a construção da sexualidade está ainda pouco estudada. Este artigo apresenta uma revisão da literatura da última década, incidindo em 3 prioridades pertinentes: educação e informação; sexualidade e actividade sexual e saúde reprodutiva. A dimensão que a sexualidade assume na qualidade de vida dos indivíduos com spina bifida conduz-nos à necessidade de elaboração de modelos teórico-práticos que visem a educação e (in)formação, prioridades encontradas consensualmente em toda a literatura.

Abstract:
Human sexuality is a complex dimension, framed by multiple biopsychosocial factors. In individuals with alterations of the neural tube development, namely spina bifida, the organization and existence of the sexual experience is still little studied.This paper reflects a revision of international references produced during the last decade, focusing in three main priorities: education and information; sexuality and sexual activity; and reproductive health. The importance that sexuality assumes in the individuals with spina bifida quality of life, leads us to the construction of theoretical-practical models that aim education and (in)formation, as priorities found currently in the literature.


Palavras-chave: spina bifida e sexualidade; função sexual e spina bifida; saúde reprodutiva na spina bifida.
Keywords: spina bifida and sexuality; sexual function and spina bifida; spina bifida and reproductive health.



1. Metodologia
Dado os poucos recursos publicados na área da sexualidade na spina bifida, procedeu-se a uma pesquisa sistematizada na base de dados PubMed entre 1998 e 2008.

Os termos utilizados na pesquisa foram organizados em 3 explorações: spina bífida and sexuality; sexual function and spina bífida; spina bífida and reproductive health.

Desta recolha foram apurados16 artigos de onde emergiram 3 alvos de análise: Educação e Informação Sexual; Sexualidade e Actividade Sexual; e Saúde Reprodutiva. Outros artigos relacionados com a etiologia, epidemiologia, conceito e características da doença, foram ainda seleccionados. É de salientar que em todos os artigos nos deparamos com a limitação de pequenas amostras, o que pôde enviesar alguns resultados.


2. Introdução
A prevenção e o diagnóstico pré natal das doenças do tubo neural permitiram reduzir o número de pessoas afectadas. Em simultâneo, os progressos no conhecimento e nos tratamentos das deficiências que surgem em consequência da lesão do tubo neural, foi possível aumentar a esperança de vida dos portadores de spina bifida.

Esta doença pode condicionar alterações a diversos níveis, em consequência da lesão neurológica: esfincteriano, podendo condicionar incontinência urinária e/ou fecal; do aparelho locomotor, podendo condicionar limitação da mobilidade. Apesar destas dificuldades os portadores de spina bifida sentem necessidade de estar ao nível dos seus pares, nomeadamente no que concerne às relações emocionais e ao desempenho de uma vida sexual satisfatória.

O acesso à informação e à educação sexual pauta-se pelas alternativas à disposição que podem ser os profissionais de saúde, a escola e os familiares, no entanto com pouca especificidade relacionada com a spina bifida.

A saúde reprodutiva representa um aspecto relevante para estes doentes, englobando questões de fertilidade e de aconselhamento genético.


3. Spina bífida: conceito e características

A spina bifida compreende um grupo de múltiplas e complexas anomalias congénitas que afectam o desenvolvimento do tubo neural (mielodisplasias) e as estruturas relacionadas, durante a 3ª ou 4ª semanas de gravidez. Nas formas mais comuns de spina bífida encontramos a spina bifida oculta e a spina bifida cística, esta última dividindo-se em dois tipos: meningocelo e mielomeningocelo, conforme representadas na Imagem 1.



A spina bifida oculta consiste numa malformação de uma das vértebras que pode ser descoberta ocasionalmente através de algum exame radiológico ou de manifestações externas, como por exemplo um tufo piloso ou uma depressão na zona afectada. Raramente causa complicações.

Na spina bifida cística a aparência exterior revela uma protuberância (bolsa ou quisto) na face dorsal, que no meningocelo contém meninges e líquido cefalorraquidiano e não apresenta lesões graves das raízes nervosas. No mielomeningocelo, a bolsa, para além do líquido cefalorraquidiano e das meninges, contém raízes nervosas que podem condicionar a gravidade da deficiência.

Apesar do mielomeningocelo ser a forma mais grave e mais comum, Bowman, McLone, Grant, Tomita & Ito (2001) referem que pelo menos 75% das crianças nascidas com este tipo de spina bifida cística podem ter a expectativa de alcançar a vida adulta.

……..

……


CONDIÇÃO

SPINA BIFIDA OCULTA

SPINA BIFIDA CÍSTICA


MENINGOCELO

MIELOMENINGOCELO


Conteúdo da bolsa cística

Não há formação de bolsa cística.

Liquido cefalorraquidiano e meninges.

Liquido cefalorraquidiano, meninges e raízes nervosas da medula espinal.



Associações observadas

50% dos casos: angioma/ pigmentação/ pilosidade.


Tumefacção

coberta com uma camada de pele fina.

Tumefacção coberta com uma camada de pele fina; hidrocefalia em 90% dos casos.


Sintomas clínicos

Ausência de lesão neurológica.

Sem alterações neurológicas na ausência de outra malformação associada.


Paralisia motora; alterações sensitivas; incontinência esfincteriana.


Nível medular


Lombo-sagrada ou sagrada (L5 e S1).

75% nos segmentos lombar e lombo-sagrados.


75% nos segmentos lombar e lombo-sagrados.


Epidemiologia

Entre 5 a 10% da população.


Ocorre em menos de 10% dos casos de spina bífida.


Ocorre na grande maioria dos casos de spina bífida.


Quadro 1: Resumo das características da spina bifida.

4. Etiologia e epidemiologia

Há evidências na literatura que suportam a utilização do ácido fólico periconcepcional, entre 1 a 3 meses, até ao final do primeiro trimestre de gestação como prevenção (Ray, Singh, & Burrows, 2004). Porém, ao mesmo tempo que a investigação epidemiológica em spina bifida encontra associação com a deficiência deste suplemento, causas genéticas e ambientais são de igual modo consideradas na sua etiologia (Mitchell, 2005). Apesar da etiologia multifactorial, existe o risco recorrente de 1/30 para familiares em primeiro grau e de 1/220 para familiares de segundo grau (Shurtleff, 2004).

A prevalência de spina bifida no mundo, até 1998, apresentava valores mínimos de 0.77 em França e máximos de 15.25 no México, por cada 10.000 habitantes (de Jong, Chrzan, Klijn & Dik, 2008). Em Portugal encontram-se valores para os períodos entre 1992 e 1996 de 6.2 em cada 10.000 habitantes na zona centro, sendo que os dados referentes à totalidade do país apontam para uma prevalência de 9.4 por cada 10.000 habitantes entre 1997 e 1999 (Gonçalves & Alfaiate, 2007). Estudos epidemiológicos posteriores a estas datas não são conhecidos.


5. Educação e informação sexual
Apesar de iniciarem a sua actividade sexual mais tarde quando comparados com os seus pares, os homens portadores desta patologia possuem desejo sexual normal e mostram-se interessados em obter informação relacionada com a sua sexualidade (Bong & Rovner, 2007). As mulheres com spina bifida manifestam curiosidades e preocupações de ordem sexual e reprodutiva ao entrarem na adolescência e na idade adulta (Jackson & Mott, 2007).

Nas suas publicações que envolveram 51 jovens e 69 pais, Sawyer & Roberts (1999) sustentam que a escola é o maior veículo de informação (74%), porém apenas 8% dos inquiridos referem estar satisfeitos com as informações recebidas relacionadas especificamente com a sexualidade na spina bifida. A maior parte dos jovens (74%) e dos seus pais (59%) classificaram o seu conhecimento acerca da saúde sexual da spina bifida como ‘pobre’ ou ‘extremamente pobre’.

Outro estudo aconselha que os profissionais de saúde promovam informação acerca de comportamentos saudáveis e sexualidade junto dos familiares de doentes com spina bífida (Antle, Mills, Steele, Kalnins & Rossen, 2008a).

Para determinar o nível de conhecimento acerca da sexualidade, bem como o grau de acesso a informações desta natureza, Sawin, Buran, Brei & Fastenau (2002) avaliaram 60 adolescentes, 60% do sexo feminino e 40% do sexo masculino, com spina bifida, que indicaram ser seres sexuados tal como os seus pares (84%).

Referem ter conhecimento que devem utilizar métodos contraceptivos (82%) e que podem contrair doenças sexualmente transmissíveis (96%) se não se prevenirem através da utilização de preservativos, sendo que estes não devem ser de látex (72%). Por fim, 62% dos inquiridos consideram ser fácil para os adolescentes com spina bifida obterem informação acerca da sexualidade em geral.

Em Portugal, a maioria dos doentes considera ter um grau de conhecimento médio acerca da sexualidade em geral e aponta a escola, a família e os médicos como promotores desse conhecimento. No entanto, quando instados a revelar o contributo dos profissionais de saúde, 17 doentes dos 27 participantes (62,9%) respondem ‘pouco’ e ‘nenhum’. Setenta e quatro por cento destes doentes elegeram a sexualidade em doentes com spina bifida o tema que gostariam de ver mais debatido com os profissionais de saúde (Conceição et al., 2006).

O Modelo PLISSIT de J. Annon (Garrett & Teixeira, 2006), é sugerido como um instrumento útil na abordagem informativa e educativa junto destes doentes (Sawyer & Roberts, 1999; Sawin, Buran, Brei & Fastenau, 2002).


6. Sexualidade e actividade sexual
Não é propósito desta revisão incidir sobre os distintos desempenhos da sexualidade consoante o grau de incapacidade (na spina bifida oculta, no meningoncelo ou no mieolomeningocelo), no entanto apresenta-se um panorama da pesquisa efectuada:

No Quadro 2 observa-se a descrição dos doentes com spina bifida que são sexualmente activos e que apresentam problemas ao nível da função sexual de acordo com o seu nível da lesão. O grupo de spina bifida cística com hidrocefalia (AHC+) e o grupo com lesões altas (HLL) mantém menor actividade sexual que os restantes grupos. Os sujeitos sexualmente activos (homens) com AHC+ e com HLL, apresentam mais dificuldades na função sexual que os homens de outros grupos. Indivíduos do sexo masculino com spina bifida oculta não manifestaram problemas com a função sexual. Para as mulheres, a função sexual não representa diferenças significativas (Verhoef, Barf, Post, van Asbeck, Gooskens & Prevo, 2004).



Condição


AHC+

n=116


AHC-

n=23

OC

n=37

HLL

n=71

MLL

n=67

LLL

n038


% homens sexualmente activos


% mulheres sexualmente activas


Homens sexualmente activos


% problemas com erecção

% problemas com ejaculação

% problemas com orgasmo


Mulheres sexualmente activas


% problemas com lubrificação

% problemas com orgasmo

_______________________

60


46


n=28


29

39

43


n=32


6

47

93


89


n=13


8

15

8


n=8


0

38

100


88


n=12


0

0

0


n=22


14

23

46


44


n=13


39

54

54


n=19


5

47

86


66


n=25


16

24

20


n=25


12

36

94


82


n=15


0

0

7


n=18


6

28



Quadro 2 – Adaptação de Verhoef, Barf, Post, van Asbeck, Gooskens & Prevo, 2004.

AHC+ (spina bifida cística com hidrocefalia); AHC- (spina bifida cística sem hidrocefalia);

OC (spina bifida oculta); HLL (lesão de nível alto); MLL (lesão de nível médio); LLL (lesão de nível baixo)


Vinte e seis doentes foram objecto de estudo para avaliar a correlação entre a função sexual da spina bifida e a sensibilidade peniana ao toque, sabendo que o grau de rigidez na erecção e o orgasmo estão relacionados com o grau de sensibilidade apresentado (Shiomi, Hirayama, Fujimoto & Hirao, 2006).

Com o propósito de contribuir para a saúde sexual e a qualidade de vida, 3 doentes com lesões entre L1 e S2 e que associavam ausência de sensibilidade peniana, com sensibilidade normal na zona inguinal, foram submetidos a uma cirurgia que tinha por objectivo a recuperação da sensibilidade, fazendo a anastomose do nervo ilioinguinal ao nervo dorsal, na base do pénis.

Este bypass em doentes com spina bifida resultou num aumento na qualidade de vida sexual, bem como na auto-estima dos participantes (Overgoor, Kon, Cohen-Kettenis, Strijbos, de Boer & de Jong, 2006). Actualmente 15 doentes submeteram-se ao bypass, dos quais 12 recuperaram a sensibilidade peniana (de Jong, Chrzan, Klijn & Dik, 2008a).

Relativamente à terapêutica oral, Palmer, Kaplan, Firlit & Snyder (2000) e Bong & Rovner (2007) apontam para a eficácia do Sildenafil nos doentes de spina bífida com disfunção eréctil.

A insatisfação com a vida sexual toma valores elevados quando os doentes com spina bifida são confrontados com questões relativas à sua qualidade de vida. Em 180 doentes inquiridos, 55% manifestaram estar insatisfeitos com a sua vida sexual e 49% com os relacionamentos amorosos.

Nestes dois parâmetros de vida não há diferenças relacionadas com os tipos de spina bifida (Barf, Post, Verhoef, Jennekens-Schinkel, Gooskens, & Prevo, 2007). Alguns autores (Cardenas, Topolski, White, McLaughlin & Walker, 2008a) referem que as mulheres com spina bifida sentem maior satisfação na sua sexualidade, pelo que têm melhor percepção da sua qualidade de vida.

Em Portugal, apesar de 37% dos doentes estudados manifestarem insatisfação com a vida sexual, esta foi considerada como ‘importante’ (40,7%) e ‘muito importante’ (22,2%). A vida sexual satisfatória esbarra em obstáculos como a falta de autoconfiança, a incontinência fecal e urinária, o que faz com que um reduzido número de doentes (22,2%) tenha tido actividade sexual no último ano (Conceição et al., 2006).


7. Saúde reprodutiva
Pouca investigação tem sido feita relacionada com a saúde reprodutiva da mulher com spina bifida, apesar destas questões serem tão importantes para as mulheres com spina bifida como para as mulheres sem esta patologia (Jackson & Sipski, 2005; Jackson & Mott, 2007).

Na investigação de Sawyer & Roberts (1999) 57% dos participantes revelaram maiores preocupações relativas a questões de risco genético e de fertilidade.

Em relação a uma eventual gravidez indesejada 70% das 40 adolescentes que participaram no estudo afirmaram ter a noção de que se não tomarem precauções, essa possibilidade possa ser real. Cerca de 50% consideram a eventualidade de virem a ser pais e preocupam-se com as questões genéticas envolvidas, porém apenas 62% manifesta saber que deve adicionar um suplemento de ácido fólico à sua dieta diária (Sawin, Buran, Brei & Fastenau, 2002).

O curso da gravidez é semelhante ao das mulheres sem spina bifida, excepto pelo risco acrescido de infecções urinárias e úlceras de pressão. A recomendação é que o parto seja vaginal, para evitar complicações de ordem cirúrgica.

No caso dos homens, o melhor prognóstico para a fertilidade encontra-se no grupo das lesões sagradas; pelo contrário, as lesões acima de T10 apresentam risco de azoospermia (Bong & Rovner, 2007). A electroejaculação e a inseminação artificial são as técnicas mais utilizadas quando os sujeitos desejam experimentar a paternidade e não possuem esta capacidade de forma natural.


8. Discussão
Apesar de pouco vasta, a literatura disponível relacionada com a sexualidade na spina bifida, apresenta-se consensual nos grupos alvos de análise: Educação e Informação Sexual; Sexualidade e Actividade Sexual; e Saúde Reprodutiva.

Na área da educação e informação, estas são efectuadas na maior parte das vezes pela escola e pela família e não se relacionam com a especificidade da doença. Os doentes mostram-se interessados em obter conhecimentos relacionados com a sua sexualidade, sugerindo ser um tema que gostariam de ver discutido com os profissionais de saúde.

Apesar do desejo sexual ser considerado semelhante ao dos seus pares, os homens com spina bifida têm mais dificuldades no desempenho da actividade sexual devido à disfunção eréctil decorrente da doença. Resultados em avaliações da função sexual sugerem que problemas com a erecção, orgasmo e ejaculação, são mais frequentes em doentes com hidrocefalia ou lesões acima de L2.

As investigações experimentais com o objectivo de permitir a recuperação da sensibilidade peniana, podem modificar o curso da sexualidade nos doentes do sexo masculino, aumentando a percentagem de satisfação sexual e consequente qualidade de vida.

Problemas com a obtenção de orgasmo são mais comuns em mulheres com hidrocefalia, apesar desta condição se apresentar predictiva para uma maior actividade sexual.

Por fim, a incontinência esfincteriana e a falta de autoconfiança apresentam-se como os dois principais obstáculos na vivência da sexualidade do sujeito com spina bifida.

Relativamente à saúde reprodutiva, as maiores preocupações centram-se na fertilidade e nas questões de ordem genética, embora apenas um reduzido número de participantes conheça o suplemento de ácido fólico como um meio de prevenção para malformações do tubo neural.

Para os casos que desejam experimentar a paternidade, a electroejaculação pode ser uma alternativa a considerar nos homens e as mulheres são aconselhadas a vigiarem o aparelho urinário e a evitarem úlceras de pressão. O parto por cesariana deve ser evitado.


9. Conclusões

A sexualidade em doentes com spina bifida assume grande importância na sua qualidade de vida. Contudo, a prevalência de pessoas insatisfeitas nesta vertente impede que se estabeleçam contactos mais íntimos que possam permitir consistência nos relacionamentos.

A abordagem da sexualidade junto dos doentes com spina bífida mostra-se de extrema utilidade para que a educação seja eficaz. A utilização do Modelo PLISSIT pode representar a ferramenta ideal para questões desta natureza, já que promove informação, sugestões específicas e planos terapêuticos para cada sujeito.

Mamãe é Down



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Há no mundo cerca de 30 casos documentados de mulheres com a síndrome que deram à luz. Uma delas é Maria Gabriela, mulher de Fábio e mãe da pequena Valentina

EM FAMÍLIA
Valentina não herdou a deficiência intelectual do pai, Fábio, nem a síndrome de Down da mãe, Gabriela

Tio, a barriga da Gabriela está dando socos. ”Foi assim, no meio de um bate-papo inocente, que o estudante Fábio Marchete de Moraes, de 28 anos, deixou escapar que ele e a mulher brincavam de “examinar” o ventre dela. Fábio não imaginava que as pancadinhas partiam de uma criança em gestação. Maria Gabriela Andrade Demate, a dona da barriga, também de 28 anos, não fazia idéia de que estava grávida. Embora estivessem juntos havia três anos, dividindo o mesmo teto e a mesma cama, Fábio e Gabriela acreditavam que o sexo entre eles fosse proibido. Seus pais nunca tinham dito, de maneira explícita, que permitiam esse tipo de intimidade. Gabriela tem síndrome de Down. Fábio é deficiente intelectual.

Foi por desconfiar do abdome saliente de Gabriela que o amigo de Fábio procurou a mãe da jovem. “Os dois vêm a minha choperia quase todos os dias e me chamam de tio”, diz Vlademir Cypriano. “Eles me contam coisas que não falam para mais ninguém.” Um teste de farmácia, comprado às pressas, não foi suficiente para eliminar a suspeita. “Mesmo vendo as duas listrinhas do exame, não acreditava que a minha filha estivesse grávida”, afirma Laurinda Ferreira de Andrade. “Levei Gabriela a três ginecologistas e nenhum deu certeza de que ela pudesse ter um bebê. Percebi que estava ficando mais gordinha. Mas achei que fosse por comer demais”. A gestação avançada, descoberta aos seis meses, gerou pânico e encheu a família de dúvidas. Até o nascimento prematuro de Valentina, transcorreram cerca de 60 dias. “Foram os mais longos da minha vida”, diz Laurinda. “Minha filha não tinha feito o pré-natal desde o início, como é recomendado. Por causa da síndrome de Down, ela poderia ter problemas cardíacos. A gravidez era de risco”.

Apesar de o processo de inclusão dos deficientes na sociedade estar distante da perfeição, Gabriela representa uma geração que tem desbravado caminhos. Quando ela nasceu, em 1980, não era comum avistar crianças Downs nos arredores de Socorro – município paulista de 33 mil habitantes fincado na divisa com Minas Gerais, onde Gabriela cresceu – nem pelas ruas de grande parte das cidades brasileiras. “Na hora do parto, perguntei ao médico: ‘Doutor, a minha filha é perfeita?’”, diz Laurinda. “Ele me respondeu: ‘O que é ser perfeita? É ter braços? Pernas? Então ela é perfeita’”.

Embora desconfiassem do diagnóstico, nenhum profissional do hospital revelou à família a deficiência de Gabriela. Afirmaram apenas que ela tinha algum “problema genético”. Ao deixar a maternidade, Laurinda procurou ajuda. “Foi um choque descobrir que a minha filha era Down. O médico me contou da pior forma possível. Disse que ela ia ter um monte de doenças, ter problemas cardíacos e ia morrer. Até que uma amiga me alertou que eu teria de escolher entre fechá-la dentro de casa ou abri-la para o mundo. Vesti a Gabriela com a melhor roupa e saí.”

A desinformação – que em parte se deve aos próprios profissionais de saúde – perpetua um mito que a ciência já derrubou. É raro, mas mulheres Downs podem engravidar. “No mundo todo, há apenas cerca de 30 casos documentados de mulheres Downs que tiveram filhos”, diz Siegfried M. Pueschel, geneticista do Rhode Island Hospital, nos Estados Unidos, um dos maiores estudiosos da síndrome.

Os homens são quase sempre estéreis. Na literatura médica, há só três casos descritos de pais Downs. Com as mulheres é diferente. “Um terço delas é fértil. Um terço ovula irregularmente. E um terço não ovula”, afirma o geneticista Juan Llerena Junior, do Instituto Fernandes Figueira, uma unidade da Fiocruz. “Hoje, os jovens que têm a síndrome estão mais expostos à vida social e ao sexo. Muitos deles trabalham, têm amigos, saem para se divertir. Antes não era assim. Eles ficavam mais reclusos”, diz Pueschel.

A postura positiva de Laurinda, mãe de Gabriela, foi determinante no desenvolvimento da filha. Gabriela deu os primeiros passos sozinha aos 2 anos e 8 meses. Na infância, tinha medo de água e de andar de bicicleta. Afogava-se na piscina, mas pulava de novo até aprender a nadar. Ao andar de bicicleta, caía. Ralava as pernas. Subia de volta e pedalava. Apesar dos hematomas que ganhava nas aulas de judô, lutou para chegar à quarta faixa. Gabriela resistiu aos golpes – e revidou –, a ponto de pendurar uma medalha no peito. Dançou balé. Foi rainha de bateria de escola de samba e tocou tamborim numa ala dominada por homens. Gabriela fica indignada por não dirigir. “Se todo mundo pode, por que eu não posso?”, diz. Em Socorro, cidade do interior paulista onde vive, ela é mais popular que o prefeito. Todo mundo conhece um pouco de sua história.

Gabriela cresceu longe do pai, aprendendo com a mãe e os dois irmãos a não se conformar. “Um deficiente não rende se for poupado. Teria sido mais confortável ser uma mãe superprotetora. Mas eu decidi criar minha filha para o mundo”, afirma Laurinda. Até se descobrir grávida, Gabriela não parava quieta. Fazia aulas de equitação e treinava musculação. Foi na adolescência que ela começou a demonstrar interesse por meninos. Teve permissão para namorar. Para a mãe, um relacionamento estável e às vistas da família poderia afastá-la de eventuais aproveitadores.

O primeiro eleito de Gabriela foi Eric, um colega Down da Apae. O namoro correu bem durante anos. Até que Fábio, um amigo de infância que voltou a freqüentar a instituição, embaralhou a cabeça dela. Gabriela o paquerou. Ele resistiu. Gabriela insistiu. Fábio cedeu. Durante dois meses, Gabriela levou os dois namorados em banho-maria. O triângulo amoroso terminou quando Laurinda exigiu que a filha tomasse uma decisão. A opção dela por Fábio fez Eric virar uma fera. Os dois rapazes chegaram a se pegar numa festa de aniversário. Fábio ainda sente ciúme quando Gabriela encontra antigos colegas da Apae. Eric faz cara feia quando cruza o rival.

Em pouco tempo, Fábio e Gabriela estariam morando juntos. Não foi nada cuidadosamente planejado. O casal tinha dois quartos montados. Um na casa da mãe dele, a oficial de Justiça Benedita Aparecida Marchete, no centro de Socorro. Outro no sítio de Laurinda. Os 5 quilômetros que separavam as duas residências se mostraram distantes demais para os namorados. “Gabriela trouxe suas coisas aos poucos”, diz Benedita. “Um dia vinha dormir em minha casa e deixava algumas peças de roupa para trás. No dia seguinte, trazia mais. Ela foi ficando”.

As famílias de Fábio e Gabriela acharam prudente não separar o casal. Laurinda foi criticada. Mexeriqueiros da cidade comentavam que ela havia “largado” a filha. Alheios ao que os outros diziam, Fábio e Gabriela se tornavam mais e mais cúmplices. Ela faz questão de cuidar da saúde dele. Fica brava se a sogra tenta se antecipar e dar o anticonvulsivo diário para o filho. É Gabriela quem escolhe as roupas, faz a barba e lava os cabelos negros de Fábio. Ele não deixa por menos. Os 4 graus de hipermetropia fizeram Gabriela tão dependente de óculos que ela não os tirava do rosto nem para dormir – e não permitia que ninguém tivesse essa liberdade. Fábio contornou a mania. Todas as noites, espera Gabriela pegar no sono para tirar os óculos de seu rosto e soltar seus cabelos longos, lisos e loiros. Só depois ele adormece.

A chegada de Valentina, hoje com 5 meses, mudou a rotina de toda a família de Gabriela. O tio Frederico, estudante de Artes Cênicas na mineira Ouro Preto, visita Socorro com mais freqüência. Outro tio, Júnior, um dentista cheio de pacientes nas redondezas, costuma abrir espaço na agenda para zelar pela sobrinha. A avó Laurinda passou a viver com a neta. Deixou para trás um confortável sítio para morar a 70 metros da casa da filha e do genro. Tudo para que Valentina cresça junto dos pais. Apesar de viverem com a mãe dele, Gabriela e Fábio não passam um dia longe da menina. Sob a supervisão da avó Laurinda, Gabriela dá mamadeira, troca fraldas, brinca e cuida de Valentina. Fábio não costuma pegar a filha no colo porque ainda tem receio de derrubá-la. No bolso, carrega todo orgulhoso um celular com a foto de Valentina. “Ela vai aprender a chamar o meu nome”, diz.

Fábio nasceu de cesariana. Dois dias depois, começou a apresentar problemas respiratórios. Passou uma semana na incubadora. “O neuropediatra disse que ele deve ter tido uma queda abrupta de açúcar ou cálcio. Como não conseguia respirar, o lado esquerdo do cérebro foi afetado”, afirma Benedita. Fábio começou a andar depois dos 2 anos. Tem problemas motores e na fala. Sua dificuldade com as palavras (somada ao descaso de uma funcionária do cartório de Socorro) atrasou quase três meses o registro do nascimento de Valentina. Fábio não conseguia pronunciar seu endereço e o nome completo da menina: Valentina Andrade Demate e Marchete Moraes. O caso precisou parar na Justiça para que Valentina tivesse o nome do pai e da mãe na certidão. Como Fábio não sabe escrever, Gabriela assinou o documento.
UNIDOS
A avó Laurinda (à frente) foi morar com a neta a 70 metros da casa da filha e do genro

Valentina não tem síndrome de Down. Segundo Laurinda, os médicos também descartaram a hipótese de a menina ter herdado as características de Fábio, já que a deficiência dele não teria origem genética. “A probabilidade de uma mulher Down gerar um filho com a síndrome é de 50%”, diz o pediatra Zan Mustacchi, responsável pelo Departamento de Genética Clínica do Hospital Infantil Darcy Vargas, em São Paulo. Pelo menos metade dos embriões Downs não chega a nascer. Terminam em abortos espontâneos.

Estima-se que sul-americanas têm, em média, um bebê Down para cada 600 nascidos vivos. Grande parte do risco está relacionada à idade materna e é maior no início e no final da vida reprodutiva. “Sempre se falou sobre a ‘culpa’ da mulher. Hoje, sabemos que em 20% dos indivíduos Downs o material cromossômico a mais veio do pai, não da mãe”, diz Mustacchi.

Esclarecer os mitos sobre a síndrome traz benefícios à sociedade. Há cinco décadas, os Downs raramente chegavam à idade adulta. Problemas cardíacos congênitos que afetam quase metade deles e não eram diagnosticados, aliados à baixa imunidade não tratada, antecipavam-lhes a morte. Fatores como assistência médica mais eficaz e específica e maior inserção social contribuíram para que a expectativa de vida saltasse para 56 anos, em média. No Brasil, pelo menos 300 mil crianças, adolescentes e adultos têm a síndrome. Mais de 5 mil bebês Down nascem no país a cada ano.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Britânica faz campanha por sexo para filho com Down

A matéria vai no link abaixo:

<http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2009/03/19/britanica-faz-campanha-por-sexo-para-filho-com-down-754901360.asp>

Eu, no meu caso de pessoa humana, detestaria que minha mãe agenciasse minha vida sexual.. Me soa uma grande invasão e ausência de privacidade na vida deste jovem, em nome de condições iguais.. Me parece que essa mãe vai fazer de tudo para o filho leve uma vida comum, levado por sua mão.. Tem muitas pessoas sem síndorme de Down que não tiveram relações afetivas nem sexuais com 21 anos e nem por isso suas mães interviram nisso. Aliás, isso ainda mais o inferioriza em relação a sua própria auto-estima diante das suas pretendidas. As relações afetivas são relações, não jogos, e muito menos objetos de consumo.. É o filho pagando o preço pela visão impositiva dos pais. Nada de novo.